Dr. Pablo Leite

Como o alto e médio vale estão dormindo, sofrendo as consequências da modernidade?

Por: Dr. Pablo Leite

“Tudo começou quando as noites de sono completas que me renovavam para outro dia deixaram de existir. Eu comecei a despertar e muitas vezes demorara para voltar a dormir, acordado pela manhã cansado. O meu dia ficou pouco produtivo pela sonolência e a minha memória parece que não é mais a mesma.”

Esta é em parte ou total a queixa do paciente que está desenvolvendo a apneia do sono que pode ser periférica obstrutiva por colapso das vias aéreas ou central  relacionada a falhas nos mecanismos cerebrais durante o sono.

A importância fisiológica do sono para o organismo vem sendo cada vez mais estudada e entendida. O sono com suas fases tem papel renovador metabólico com importantes impactos sistêmicos.

Vários fatores contribuem para o desenvolvimento da condição. A obesidade é um dos principais fatores, associada a falta de desenvolvimento dos maxilares levando ao biretrognatismo (ambos os maxilares para trás, com proximidade com a base do crânio, condição que retro posiciona a língua e a coloca como um fator de obstrução das vias aéreas durante o sono.

Em nossa região venho observando três grupos de pacientes em relação a faixa etária que estão sofrendo as consequências da apnéia obstrutiva periférica do sono com diferentes quadros clínicos e possibilidades de tratamento.

O primeiro grupo corresponde aos pacientes com imaturidade dento esquelética facial, ou seja, os que ainda não chegaram ao término do crescimento craniofacial. Nestes pacientes geralmente respiradores bucais, o ronco acompanhado de hábitos parafuncionais noturnos como bruxismo e ou apertamento, sofrem as consequências da atresia maxilar com falha e ou atraso da erupção dentária. As intervenções esqueléticas de disjunção maxilar ósseo suportadas proporcionam uma resposta esquelética favorável na anatomia nasal mudando o fluxo respiratório para o nariz, estimulando o crescimento esquelético da maxila e levando ao restabelecimento das dimensões anatômicas necessárias para receber as necessidades de oxigênio cerebral durante o sono.

No segundo grupo, pacientes com maturidade esquelética craniofacial que começam a sentir a fragmentação do sono e suas consequências diurnas a partir dos 35 anos até os 55 anos. Nestes pacientes as respostas a intervenções cirúrgicas nasais e a cirurgia esquelética de avanço bimaxilar (ortognática) são extremamente favoráveis com resultados duradouros facilitando o controle da condição por anos e favorecendo o paciente em fases cronológicas mais avançadas como a partir dos 70 anos em que mesmo que a condição retorne, ela não seja de tamanha intensidade que nem mesmo medidas paliativas como o CIPAP e as placas de avanço mandibular não sejam efetivas no seu controle.

No último grupo estão os pacientes com mais de 65 anos … pacientes cujo diagnóstico foi tardio e já sofrem consequências sistêmicas da apneia como problemas metabólicos: diabetes, colesterol elevado, hipertireoidismo associados a difícil controle destas condições. Neste grupo de pacientes, as terapias de controle como o CIPAP e as placas de avanço mandibular ainda garantem em 40 % dos pacientes boa resposta. Em nossa região a miscigenação de raças ao longo dos tempos juntamente com a introdução de alimentos pastosos industrializados nos primeiros anos de vida predispôs a
uma geração de retrognatias ( falta de desenvolvimento dos maxilares) no tornando muito susceptíveis a apneia periférica do sono. O diagnóstico e abordagem precoce ainda são os melhores caminhos.