Cirurgia Ortognática no Mundo
Por: Dr. Pablo LeiteA história da odontologia remonta aos anos 3.700 a.C., retratada por manuscritos egípcios que já mencionavam enfermidades bucais como feridas nas gengivas, dores de dentes e outras manifestações clínicas. No entanto, os procedimentos cirúrgicos na região da face, em tempos antigos, restringiam-se a casos extremos, como remoção de tumores ou tratamento de fraturas por traumas, frequentemente relacionados às guerras. Isso ocorria porque a ausência de anestesia, assepsia e conhecimento anatômico detalhado impunha altos riscos de mortalidade, tornando qualquer intervenção um desafio aterrorizante.
A cirurgia ortognática, como a conhecemos hoje, teve início documentado em 1848, com o primeiro procedimento realizado na mandíbula por Dr. Simon P. Hullihen. Esse evento marcou um divisor de águas, pois introduziu a aplicação terapêutica no tratamento de deformidades dentofaciais. A partir daí, importantes figuras da medicina e odontologia contribuíram para o aprimoramento técnico e biomecânico da especialidade. Entre eles, destaca-se Edward H. Angle, que reconheceu os limites da ortodontia isolada e passou a sugerir abordagens cirúrgicas em casos de discrepância esquelética.
Outro nome fundamental é o de René Le Fort, que publicou em 1901 sua clássica descrição das fraturas do terço médio da face, divididas nos padrões Le Fort I, II e III. Esses estudos serviram de base para a realização de osteotomias maxilares, constituindo um marco fundamental para a cirurgia bucomaxilofacial. Curiosamente, os traços dessas fraturas já haviam sido descritos por Cheever nos Estados Unidos em 1867 e por Von Langenbeck, na Europa, em 1859. A utilização dessas linhas para fins terapêuticos veio posteriormente, sendo o alemão Wassmund, em 1927, o primeiro a empregar uma osteotomia maxilar segmentar para correção de mordida aberta.
O século XX representou um avanço decisivo para a consolidação da cirurgia ortognática, especialmente pelas necessidades de reconstrução facial durante as Grandes Guerras. Cirurgiões como Trauner e Obwegeser foram pioneiros na sistematização da osteotomia sagital do ramo mandibular, enquanto Bell, nas décadas de 1960 e 70, estabeleceu a osteotomia total de maxila e as cirurgias bimaxilares. Bell é considerado o pai das cirurgias combinadas por reunir fundamentos biológicos, estéticos e funcionais que tornaram possível a correção de deformidades maiores com estabilidade e previsibilidade.
Na mesma linha, outros nomes também deixaram marcas significativas. Thomas Lewis Gilmer (1849–1931), um dos maiores cirurgiões da odontologia, contribuiu para o tratamento das fraturas mandibulares com técnicas de fixação intermaxilar. Varaztad H. Kazanjian (1879–1974), dentista formado em Harvard, tornou-se referência mundial em cirurgia reconstrutiva durante e após a Primeira Guerra Mundial, desenvolvendo técnicas inovadoras para imobilização mandibular e tratamento de centenas de soldados feridos.
Na França, Hippolyte Morestin (1869–1919) destacou-se como cirurgião plástico reconstrutor e inspirou Harold Gillies, considerado o pai da cirurgia plástica moderna. Gillies, ao lado de seu primo Archibald McIndoe, também neozelandês, desempenhou papel essencial na reconstrução de soldados durante a Segunda Guerra Mundial. Já na Alemanha, nomes como Hans Pichler, August Lindemann, Martin Wassmund e Georg Axhausen promoveram o desenvolvimento da cirurgia maxilofacial, sendo Axhausen o primeiro a realizar um avanço maxilar com osteotomia total do tipo Le Fort I em 1934.
Ainda no início do século XX, destacaram-se os estudos das anomalias congênitas. Eugène Charles Apert, em 1906, descreveu a acrocefalossindactilia, enquanto Octave Crouzon, em 1912, detalhou a disostose craniofacial hereditária que leva seu nome. Ambos contribuíram de forma expressiva para a compreensão das síndromes craniofaciais, abrindo caminho para abordagens cirúrgicas específicas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a cirurgia maxilofacial avançou ainda mais. James Barrett Brown (1899–1971) liderou os serviços de cirurgia plástica do exército norte-americano, sucedendo Vilray Blair. No pós-guerra, John Marquis Converse (1909–1981), em parceria com Kazanjian, publicou obras clássicas como “The Surgical Treatment of Facial Injuries”, consolidando os princípios da cirurgia reconstrutiva.
Em 1949, Gillies realizou uma cirurgia baseada no padrão Le Fort III para tratar uma paciente com síndrome de Crouzon — um marco para a cirurgia craniofacial, mesmo que a operação tenha sido considerada arriscada na época. Esse procedimento inaugurou uma nova era de possibilidades cirúrgicas.
Nas últimas décadas, a cirurgia ortognática passou por uma transformação tecnológica sem precedentes. O planejamento virtual tridimensional, os softwares de simulação, a confecção de guias cirúrgicos customizados e o uso de instrumentos piezoelétricos permitiram maior precisão, menor morbidade, tempo cirúrgico reduzido e recuperação mais rápida. Associados a uma filosofia minimamente invasiva, esses avanços têm possibilitado tratamentos mais humanizados, eficazes e acessíveis a um número cada vez maior de pacientes.
Hoje, a cirurgia ortognática é uma especialidade consolidada, essencial no tratamento de deformidades dentoesqueléticas que não podem ser resolvidas apenas com ortodontia. Seu desenvolvimento ao longo da história reflete o avanço da ciência, a busca por excelência técnica e o compromisso com a reabilitação funcional e estética dos pacientes. Muito além da correção de estruturas ósseas, ela representa um instrumento poderoso de transformação da qualidade de vida, da autoestima e da integração social de milhares de pessoas ao redor do mundo.